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8.5.10

Reflexos


Corro o risco de me repetir, provavelmente até se torna cansativo ler estas palavras, mas são apenas um reflexo do que sinto e do que hoje, em mais um momento, constatei. Ao ouvir histórias de vida ganhamos uma nova perspectiva em relação à nossa. Perceber a forma como outras pessoas lidaram com problemas, enfrentaram provações, encontraram estratégias para superar dificuldades, transmite-nos confiança e esperança nas nossas próprias capacidades. "Se ele(a) conseguiu... eu também consigo!" Faz-me lembrar a imagem de espelho: ao olhar-me no outro, (re)vejo-me, (re)encontro-me. É por isso que, apesar de algum cansaço (normal) do trabalho, não me canso de ouvir histórias de vida. Ouço, reflicto, repenso, aprendo, transformo(me).
Escrever a história de vida pode transformar quem a escreve, mas também quem a lê.

1.5.10

Afinal...


...onde está a chave para a aprendizagem?...

18.1.10

Educação permanente


"A educação prolonga-se por toda a vida. Defino-a da seguinte maneira: a maturação da nossa alma e do nosso espírito graças aos nossos cuidados e às circunstâncias exteriores."

Eugène Delacroix

12.1.10


"O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência, mas somente a falta de curiosidade."

Agostinho da Silva

1.10.09

Ciclos

Hoje cometi um pecado. Talvez um erro. Caí em tentação. Não sei, podia dar-lhe vários nomes. É preciso fazer uma ressalva, antes de ser Profissional RVC, sou Psicóloga. Foi para isso que estudei, é isso que gosto de fazer e me apaixona.
Hoje fui muito pouco Profissional RVC, hoje fui Psicóloga. Sinceramente, ao dizer isto, não sei se faz sentido. Não sei se alguma vez dissociei aquilo que sou daquilo que faço. Hoje ouvi, sobretudo. Ouvi as pessoas falarem sobre si, sobre as suas vidas, sobre as suas dores. E são tantas!... Homens e mulheres, cada um com os seus problemas. Estava a ouvir e a pensar como é que aquela pessoa que estava à minha frente, a chorar ou a conter-se para o não fazer, conseguia ainda arranjar coragem para escrever e reflectir a sua história de vida. Coloquei precisamente esta questão. Na maioria dos casos, percebi que a reflexão sobre o percurso de vida era até terapêutica, uma vez que havia uma maior consciência dos ciclos da mesma. Porque a vida é feita de ciclos. A vida é feita de momentos da maior felicidade, em que tudo parece simples e eterno, mas também é feita de dor, de sofrimento, de momentos que parecem, igualmente, não ter fim. E a vida é feita da capacidade de dar a volta aos ciclos negativos para os transformar em positivos. É isso que os "meus" adultos me ensinam diariamente. Ouvi-los é, também para mim, terapêutico. Por isso, ao agradecerem pelo tempo ou pelo desabafo, a única coisa que posso dizer é que eu é que tenho tanto, mas tanto a agradecer!

24.9.09

E/ou língua estrangeira?...

Comemora-se no próximo dia 26 o Dia Europeu das Línguas, proclamado pelo Conselho da Europa no final do Ano Europeu das Línguas, em 2001, e que pretende incentivar a aprendizagem das línguas entre todos os grupos etários, bem como destacar a importância da diversidade linguística. É importante partir do princípio que a aprendizagem de línguas é um processo que dura toda a vida e não se limita apenas à escola.
Segundo dados divulgados hoje pelo Eurostat, Portugal é o segundo país da União Europeia (UE) onde menos adultos falam uma língua estrangeira. Cerca de 51% de adultos entre os 25 e os 64 anos não falam qualquer língua estrangeira, contra 36,2% da média da UE. (Fonte: Público)
Estes dados não deixam de ser preocupantes, uma vez que o domínio de línguas estrangeiras é fundamental na economia moderna e no mundo do trabalho, que cada vez é mais global e competitivo.
Não podemos deixar de reflectir e de pensar o que está a ser feito neste momento a este nível, para a população adulta. Como reconhecer competências que a grande maioria dos adultos não possui?... Que políticas de formação existem e qual será o seu impacto na aprendizagem efectiva de línguas estrangeiras?... Continua, na minha opinião, a ser uma lacuna que terá que ser discutida em profundidade e que pede respostas e medidas urgentes, eficientes e eficazes.

9.9.09

Refletir a prática

"(...) Na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser de tal modo concreto que quase se confunda com a prática. O seu «distanciamento» epistemológico da prática enquanto objeto de sua análise, deve dela «aproximá-lo» ao máximo."


Paulo Freire, in "Pedagogia da Autonomia"

3.7.09

Dar valor

Um dos princípios básicos para trabalhar na educação de adultos, na minha opinião, é acreditar no potencial das pessoas, nas suas competências, nos seus saberes e na capacidade que têm de aprender e evoluir sempre mais. Por isso, é com tristeza que ouço alguns colegas falarem dos adultos que acompanham de uma forma tão distante e tão desfasada da realidade. "Não sabem escrever, nem reflectir, nem mexer num computador, nem falar uma língua estrangeira, nem têm cultura, nem, nem...". E do que os adultos sabem fazer? Raramente ouço alguém falar, infelizmente. Quantas vezes nos preocupamos em nos sentarmos e conversarmos com a pessoa que temos à nossa frente, com tempo e vontade para entender as suas reais competências? São os adultos que acompanhamos que têm construído o nosso país. É certo que em alguns campos podemos estar muito abaixo das médias europeias, mas noutros estamos muito acima, e é graças a essas pessoas, que todos os dias, ao longo da sua vida, têm aprendido a lutar e a superar as adversidades. Pessoas que sabem mais do que eu ou do que muitos dos técnicos que as acompanham, nas mais diversas áreas, quer a nível profissional, quer pessoal, quer social.
Muitas das pessoas que mais marcaram a minha vida são analfabetas ou têm baixas habilitações, não sabem escrever ou fazem-no com dificuldade, não mexem num computador e apenas ouvem falar em "internet", sem no entanto conseguirem compreender o que é ou como funciona, mas isso não faz delas pessoas menores, pelo contrário. Muitas vezes são estas pessoas que nos dão verdadeiras lições de cidadania, de educação, de partilha, de respeito pelos outros. E para isso não há UFCD, ou Cursos EFA, ou sequer Licenciaturas ou Mestrados que valham. Isso só se aprende na e com a vida. Por isso, tenho sempre muito respeito e admiração pelos adultos que acompanho. E é uma pena ouvir técnicos e supostos profissionais desta área falar assim. Porque enquanto não acreditarmos nas pessoas e na sua capacidade e vontade de empreender e aprender, ficaremos sempre aquém daquilo que se espera com estes processos, que dependem, em larga medida, do nosso empenho, comprometimento e atitude, enquanto profissionais.

11.6.09

Caminhar

Há já algum tempo que não escrevo neste espaço. Todos nós passamos por fases de algum desânimo ou frustração a nível profissional. As razões são imensas, porque temos que lidar com conflitos no dia-a-dia, porque gostaríamos de estar a fazer uma coisa diferente, porque nos sentimos pouco recompensados ou reconhecidos, porque o ambiente de trabalho pode não ser o melhor, porque ambicionamos mais, ou, simplesmente, porque não conseguimos encontrar no nosso dia aquela luz, aquele instante mágico que faz a diferença e que nos faz agradecer pelo que temos e pelo que fazemos. Enfim, mais uma vez, as razões são imensas, quase infinitas, tendo em conta o percurso de vida de cada um de nós.
Sempre defendi que devemos fazer o que gostamos, o que nos realiza, o que nos faz feliz. Não nego que estou numa fase em que tenho vontade de mudar, é verdade que gostaria de estar a fazer algo diferente, que me realizasse plenamente. Mas hoje, ao rever uma apresentação que fiz há quase um ano, sobre o "Baú das Recordações", que costumo usar nas minhas sessões de grupo, redescobri a essência daquilo em que acredito e do que me fez já passar momentos muito felizes e de grande realização profissional e pessoal ao longo do tempo em que tenho trabalhado como Profissional RVC. As pessoas. Sim, as pessoas, cada pessoa que passa pela minha vida e que deixa uma marca única, que tantas vezes já contribuiu para que eu mudasse, para que eu própria me transformasse ao testemunhar a transformação dos outros. A importância das histórias de vida, que me levaram a (re)pensar a minha própria, ao descobrir nos outros a força de vencer as adversidades e os obstáculos, mesmo aqueles que parecem intransponíveis. A certeza de que é possível mudar, ser melhor, fazer melhor, todos os dias. É isso que me faz voltar a ver o que faço com outros olhos, com o olhar que andou embaciado durante um tempo, mas que hoje voltou a brilhar. E, apesar de todos os constrangimentos, de tudo o que tenta ofuscar a verdadeira essência do reconhecimento e validação de adquiridos, eu acredito no que faço, acima de tudo porque acredito nas pessoas, em mim e na nossa capacidade de mudança.

10.6.09

Agora sei...

...obrigada a quem me ensinou!...

Quem somos, donde vimos, para onde vamos?
Há muito já que moro no porquê.
Nada sabemos senão que passamos.
E há sempre um homem que já foi
E há sempre um homem que ainda não é.
É esse que me dói.

Agora sei que nada é fixo: há sempre um por fazer
Há sempre outro partir depois de cada chegar

Agora sei que para saber
É preciso rasgar as mãos... e procurar.


Manuel Alegre

26.4.09

Sentidos

E não me deixará perder o sentido da minha vida - concluiu com as suas próprias palavras.

Certa tarde, voltou para casa mais cedo do que os costume, e encontrou a viúva sentada na soleira da porta.
- O que está a fazer?
- Nada tenho que fazer - respondeu ela.
- Então aprenda algo. Neste momento, muitas pessoas já desistiram de viver. Não se aborrecem, não choram, esperam apenas que o tempo passe. Não aceitaram os desafios da vida, e a vida já não as desafia mais. A senhora também corre esse perigo; reaja, enfrenta a vida, mas não desista.
- A minha vida voltou a ter um sentido - disse ela, olhando para baixo - desde que o senhor chegou.
Elias resolveu interromper imediatamente a conversa, porque não sabia como continuá-la.
- Comece a fazer alguma coisa - disse, mudando de assunto. - Assim o tempo será um aliado, e não um inimigo.
- O que posso aprender?
Elias pensou um pouco.
- A escrita de Biblos. Será útil, se tiver que viajar um dia.
A mulher resolveu dedicar-se àquele estudo de corpo e alma. Jamais pensara em sair de Akbar mas - pelo modo como ele falara - talvez estivesse a pensar lavá-la com ele.
Sentiu-se livre novamente. Novamente, acordou de madrugada, e caminhou sorrindo pelas ruas da cidade.


Paulo Coelho, in O Monte Cinco

Este pequeno texto faz-me sempre recordar as diferentes motivações que tem quem decide fazer um processo de reconhecimento de competências. E lembro-me, sobretudo, de um senhor que acompanho, que é, simplesmente, excepcional. Durante algum tempo, como Profissional, tive receio que o processo não estivesse a ser minimamente interessante para este senhor. Para além de centenas de horas de formação em que foi investindo ao longo da sua vida, é um autodidacta, que se interessa por diversas áreas, como astronomia, física, literatura, história, arte, entre muitas outras. Conta-me imensas histórias, ensina-me, sinto-o e trato-o quase como um professor, um mestre, daqueles que às vezes pensamos que já não existem. E, por tudo isto, tinha medo que o processo estivesse a ser monótono, desinteressante, sem nada de aliciante. Mas qual não foi o meu espanto quando, um dia, este senhor me diz: "vir fazer o RVCC foi a melhor coisa que me podia ter acontecido!". A minha surpresa e curiosidade foram grandes, e procurei saber porquê. "Porque eu sempre estudei e pesquisei muito, mas agora tudo o que procuro saber e recordar tem um objectivo". Fiquei a reflectir e a pensar que, de facto, há diferentes motivações para realizar este processo, e ter um objectivo, encontrar um sentido para a sua vida pode ser uma delas. Algo que parece tão simples, mas que é de facto tão importante e que pode fazer tanta diferença no dia-a-dia!

29.3.09

Optimismo na Educação

Reli e gostei bastante do conceito. Penso que precisamos de mais optimismo na educação. É difícil, mas é possível termos um espírito mais positivo, que certamente influenciará não só as nossas práticas, mas também o contacto com colegas e educandos. As palavras-chave (e muito positivas) ficam destacadas.

O Educador Optimista é aquele que:

- por melhor que seja pode sempre melhorar;
- acredita que a mudança é possível em qualquer momento da carreira profissional e da vida;
- sabe que a forma como olha, interpreta e sente a realidade determina em muito essa mesma realidade;
- em Portugal vai contra a cultura do desânimo e da crítica;
- olha para o futuro, mais do que para o passado;
- acredita que "o destino não está marcado";
- acredita que pode - e deve - transformar sonhos em realidades;
- se conhece bem e que sabe o que faz e porque o faz; é por isso que transforma cada acto educativo numa tomada de decisão bem aliçercada;
- "pensa positivo", vendo o melhor e esperando o melhor;
- sabe que os insucessos podem ser experiências de aprendizagem óptimas;
- gosta de si, se aprecia e se auto-elogia;
- atenta na construção da imagem positiva dos seus educandos e se assegura que eles acreditam nas suas potencialidades, valorizando-os permanentemente, aceitando-os nas suas insuficiências e perdoando-os nas suas imperfeições;
- sabe que os outros têm sempre boas razões para se comportarem como se comportam, e que mesmo nas pessoas ou situações mais difíceis é possível ver talentos e excelências;
- sabe que as melhorias têm que começar por si próprio;
- sabe comunicar com eficácia, ouvindo-se interiormente e ouvindo mais do que falando, respeitando mais do que impondo;
- sabe transformar problemas em desafios e limitações em energia geradora de soluções;
- transmite e vivencia, com o corpo e as palavras, alegria, felicidade e entusiasmo.

Adaptado de Marujo, H., Neto, L. & Perloiro, M. (2004). Educar para o Optimismo. Lisboa: Editorial Presença.

22.3.09

Mudança

Esta música faz-me lembrar o processo de (auto)transformação por que passa quem tem a coragem de realizar um balanço de competências... Um processo que começa, obrigatoriamente, dentro de si próprio e que conduz ao autoconhecimento. Porque conhecermo-nos é, de facto, a mais difícil, mas também a maior conquista que podemos fazer!

19.3.09

Não vou por aí...

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!


José Régio

18.3.09

Quem são os analfabetos afinal?...

Hoje tive uma experiência marcante, para juntar a tantas outras que vou vivendo nos percursos da vida. Hoje bateu-me à porta um senhor. Estava muito sujo, de barba por fazer, primeiro pensei (no pensamento estúpido que vamos formando na rotina dos dias...) que se tivesse enganado. Mas não, era mesmo para o Centro, percebi-o assim que se sentou e me disse, com um olhar vivo e brilhante, que há muito tempo que ouvia um anúncio na rádio por "causa de se voltar à escola". O mesmo olhar que reconheço sempre em quem tem curiosidade, em quem quer aprender, sempre mais e mais, contra o fatalismo da idade ou das convenções sociais. O senhor não tem quaisquer habilitações, não sabe ler nem escrever, apenas assinar o nome numa escrita rudimentar, que fez questão de me mostrar no novíssimo Cartão do Cidadão. Pegámos nesse mesmo cartão para tentar ver o que sabia o senhor afinal. Soletrou com orgulho: P-O-R-T-U-G-A-L. Não sabe juntar as letras, por isso, apesar de as soletrar, não sabia que ali estava escrito o nome do seu país. Fiquei esmagada. Não por ser a primeira vez que contactava com uma pessoa analfabeta ou por achar que não existem (há quem diga por aí que o analfabetismo em portugal é "residual..."). Felizmente vivo no mundo real, real demais. No mundo em que há um senhor de 68 anos que me diz: "tem-me feito mais falta ler e escrever do que o pão". No mundo em que no ano passado, recentemente, não foi autorizado um curso de alfabetização para 9 (N-O-V-E) pessoas. Porque eram só N-O-V-E. Não hei-de descansar enquanto essas nove pessoas, mais o senhor Artur, mais outras que estejam "perdidas" noutras instituições tenham a OPORTUNIDADE de ter o direito fundamental de aprender a ler e a escrever. Quando lhe disse que, neste momento, não tinha resposta para lhe dar, o senhor chorou e disse "nós é que precisávamos! tem-me feito tanta falta! eu não pude mesmo estudar, com 4 anos já andava a criar cabras". Este é o Portugal real, fora dos gabinetes onde se decide a certificação e/ou a qualificação. Deixei-me estar com o senhor Artur, sem olhar para o relógio, sem pensar em sistemas informáticos que tentam controlar o nosso tempo. E naquele momento ouvi aventuras vividas em França, em Espanha, e a dureza da vida que o afastou da escola, que agora procura, com 68 anos, disposto a ir "para onde for" para aprender a ler e a escrever. "Vai aprender", respondi-lhe.

16.3.09

Riscos...

De vez em quando, gosto de voltar a reler a bibliografia obrigatória sobre a metodologia de Balanço de Competências. De cada vez que o faço, dou importância a diferentes aspectos que me fazem reflectir novamente, provavelmente sugestionada pela experiência e pelo que de novo vai surgindo no contexto da educação de adultos. Hoje detive-me neste excerto, alertando para alguns dos riscos inerentes à utilização desta metodologia:

«Em segundo lugar, "um balanço de competências não é um conjunto de juízos sobre o nível escolar de um sujeito ou sobre as suas hipóteses de êxito na concretização de um projecto profissional, uma selecção ou uma simples inventariação de saberes e saberes-fazer".
Um dos riscos que aqui se perfila consiste em fazer do balanço de competências um balanço cognitivo ou escolar - assimilando a competência quer às capacidades cognitivas dos sujeitos quer aos seus conhecimentos e diplomas - daí decorrendo um reducionismo cognitivista ou culto dos diplomas.
Um risco complementar do anterior consiste em circunscrever o balanço de competências a um balanço técnico- limitando a competência a um saber-fazer "puramente" técnico, que não toma em consideração o que funda a competência, nomeadamente as capacidades genéricas ou transversais e as motivações - daí resultando um reducionismo tecnicista»

Imaginário, Luís. (1997). Balanço de Competências.

Às vezes dá-me vontade de perguntar onde fica o Balanço de Competências, como metodologia de base, nos processos de reconhecimento de competências, tendo em conta todas as alterações a que temos assistido recentemente. Doze anos depois, este artigo continua a alertar-nos para situações reais, que vivemos actualmente, e que continuam a representar riscos na implementação do BC. Aliás, actualmente, serão tão-somente riscos?...

13.3.09

O tempo na educação de adultos

Há uma ideia que cada vez mais me acompanha. Trabalhar em educação de adultos, aliás, na educação em geral, exige tempo. Um tempo que não é controlado por um relógio, mas pela nossa disponibilidade para estar com o outro. E essa disponibilidade implica uma entrega, uma paixão pelo que se faz. Trabalhar com pessoas é algo muito complexo, mas especial, é um desafio constante, uma aventura sem fim. Não há rotinas nem monotonias, cada dia é diferente. Acima de tudo, o trabalho com adultos exige algo fundamental: o respeito. Respeito pela individualidade, pela experiência de vida, pelo ritmo, pelo tempo que a pessoa necessita. Cada um de nós, profissional, tem na sua mão o poder do que quer fazer com o tempo...

6.3.09

Voar


- Vais voar, Ditosa. Respira. Sente a chuva. É água. Na tua vida terás muitos motivos para ser feliz, um deles chama-se água, outro chama-se vento, outro chama-se sol e chega sempre como recompensa depois da chuva. Sente a chuva. Abre as asas - miou Zorbas.
A gaivota estendeu as asas. Os projectores banhavam-na de luz e a chuva salpicava-lhe as penas de pérolas. O humano e o gato viram-na erguer a cabeça de olhos fechados.
- A chuva, a água. Gosto! - grasnou.
- Vais voar - miou Zorbas.
- Gosto de ti. És um gato muito bom - grasnou ela aproximando-se da beira do varandim.
- Vais voar. Todo o céu será teu - miou Zorbas.
- Nunca te esquecerei. Nem aos outros gatos - grasnou já com metade das patas de fora do varandim, porque, como diziam os versos de Atxaga, o seu pequeno coração era o dos equilibristas.
- Voa! - miou Zorbas estendendo uma pata e tocando-lhe ao de leve.
Ditosa desparaceu da sua vista, e o humano e o gato temeram o pior. Caíra como uma pedra. Com a respiração em suspenso assomaram as cabeças por cima do varandim, e viram-na então, batendo as asas, sobrevoando o parque de estacionamento, e depois seguiram-lhe o voo até às alturas, até mais para além do cata-vento de ouro que coroava a singular beleza de São Miguel.
Ditosa voava solitária na noite de Hamburgo. Afastava-se batendo as asas energicamente até se elevar sobre as gruas do porto, sobre os mastros dos barcos, e depois regressava planando, rodando uma e outra vez em torno do campanário da igreja.
- Estou a voar, Zorbas! Sei voar! - grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem, gato, conseguimos - disse ele suspirando.
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante - miou Zorbas.
- Ah sim? E o que é que ela compreendeu? - perguntou o humano.
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo - miou Zorbas.
- Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo - despediu-se o humano.
Zorbas permaneceu ali a contemplá-la, até que não soube se foram as gotas de chuva ou as lágrimas que lhe embaciaram os olhos amarelos de gato grande, preto e gordo, de gato bom, de gato nobre, de gato de porto.


Luís Sepúlveda, "História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar"

Dedico o final desta "história", que fascina e marca todos os que a lêem, à Angelina, à Fátima e à Paula, bem como a todos os adultos que já acompanhei neste processo. É muito gratificante ficar a ver-vos voar, muito emocionada, mas igualmente feliz, como o gato Zorbas. Depois de um percurso feito de lutas e de conquistas, de crescimento e de evolução, de renascimento e de reconstrução, vocês são a prova de que quando as pessoas se atrevem a voar, o conseguem mesmo fazer. Parabéns e obrigada por me deixarem acompanhar o vosso voo!

27.2.09

Histórias de vida

"Histórias. Toda a nossa vida gira à volta das histórias que ouvimos, lemos, vemos e sonhamos. Somos movidos pelas histórias que nos inspiram, emocionam, impressionam - e dão o sentido e os sentidos que, acreditamos, a vida tenha.
As histórias são, na sua imaterialidade, a forma concreta de percebermos e sentirmos a matéria de que são feitos os sonhos e de que é feito esse sonho principal que é a nossa vida, a nossa existência - o nosso corpo e o nosso tempo.
O tempo - o que é o tempo, a duração, é um mistério. E do tempo e do seu mistério temos um sinal: a memória, que organizamos como uma história, com princípio, meio e fim, por vezes, é claro, não por esta ordem.
As histórias da nossa memória são histórias onde nós somos personagens. Nós ou, mais exactamente, o que nós fomos. Mas é nessas personagens dessas histórias de amor, amizade, coragem, cobardia, maluquice, banalidades, fugas, fulgurações, etc, etc, etc, nessas histórias sempre meio inventadas que encontramos sempre a meia verdade do que somos hoje.
Foi o Paul Auster que disse que «a memória é o sítio onde as coisas acontecem pela segunda vez». Uma história de vida, contada a partir da memória do que se viveu, é uma história que acontece pela segunda vez para quem a conta. Mas, se é uma história que deve ser contada, ela é a história devida por cada um ao grande mapa das histórias do mundo e a todos os que a querem ler ou ouvir pela primeira vez."

Nuno Artur Silva, in "Histórias Devidas"

Fica apenas uma pequena amostra do que acontece todos os Domingos, às 13h, na Antena 1, com Inês Fonseca Santos e Miguel Guilherme.

18.2.09

Uma escalada ao interior de si próprio

Há muito tempo que comparo o Balanço de Competências a uma escalada que fazemos ao interior de nós próprios. E digo "nós" porque a metodologia de Balanço de Competências pode ser aplicada em diversos contextos e a diferentes destinatários. Todos nós podemos (devemos?...) fazer um balanço das nossas competências. Ao fazê-lo, (re)descobrimos muitas vezes o quanto podemos ir mais longe e como podemos (re)construir o nosso projecto de vida.