Mostrar mensagens com a etiqueta Dia-a-dia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dia-a-dia. Mostrar todas as mensagens

28.4.10

Aprendizagens


Apesar da rotina que se instala nos dias, não deixo de me impressionar com a capacidade que o ser humano tem de dar a volta à vida, de recomeçar, de lutar, de conseguir mudar e transformar dias negros em arco-íris. Essa é a maior aprendizagem que retiro da minha experiência em Educação de Adultos: todos nós, em qualquer fase da nossa vida, e mediante as piores circunstâncias, temos os recursos de que necessitamos para dar um novo rumo à nossa vida.

12.1.10

Um sonho... uma missão!

As cerimónias de entrega de diplomas são já um hábito para quem se dedica à educação de adultos, sobretudo nos últimos anos. No entanto, cada uma é revestida de momentos emocionantes e irrepetíveis, o que significa que é única. Hoje foi o dia da Escola, em que se comemoraram 32 anos de serviço em prol da educação de um concelho do interior, não se pode dizer esquecido, mas ainda sem grandes oportunidades de qualificação e de emprego. Jovens alunos e adultos receberam os seus diplomas. No entanto, algo bastante evidente os distingue: o brilho no olhar, o peito inchado de orgulho, o sorriso de satisfação pelo trabalho desenvolvido. O que se sente nestes adultos é a emoção de ver cumprido um sonho, muitas vezes adiado (e quase se pensava impossível) por uma vida difícil, de trabalho na terra, nas vindimas, na construção civil, na emigração... E por isso, entregar um diploma a uma destas pessoas é uma responsabilidade, mas também a sensação de dever cumprido. Por saber que ajudámos a concretizar esse sonho e que aquele não é apenas mais um papel que vai ficar esquecido numa gaveta qualquer.
Hoje foi um dia em que revi muitas dessas pessoas que acompanhei, que me marcaram e me transformaram numa pessoa e numa profissional mais atenta, mais sensível e mais compreensiva. Ao rever algumas dessas pessoas lembrei-me daqueles programas de televisão "Antes e Depois", que mostram as pessoas a passar por uma transformação. Para muitas delas podemos fazer um antes e um depois deste processo, que acredito as tenha transformado, como senti hoje. Pessoas, sobretudo mulheres, com mais iniciativa, mais cuidado consigo próprias, mais vontade de descobrir e de aprender coisas novas. É, pois, um dia de orgulho e de reconhecimento por todo o trabalho que foi realizado, quer por cada adulto, quer pela família que o acompanhou, quer pela equipa que a ele se dedicou. Parabéns a todos os que ousam sonhar e ir mais longe, sempre!

1.10.09

Ciclos

Hoje cometi um pecado. Talvez um erro. Caí em tentação. Não sei, podia dar-lhe vários nomes. É preciso fazer uma ressalva, antes de ser Profissional RVC, sou Psicóloga. Foi para isso que estudei, é isso que gosto de fazer e me apaixona.
Hoje fui muito pouco Profissional RVC, hoje fui Psicóloga. Sinceramente, ao dizer isto, não sei se faz sentido. Não sei se alguma vez dissociei aquilo que sou daquilo que faço. Hoje ouvi, sobretudo. Ouvi as pessoas falarem sobre si, sobre as suas vidas, sobre as suas dores. E são tantas!... Homens e mulheres, cada um com os seus problemas. Estava a ouvir e a pensar como é que aquela pessoa que estava à minha frente, a chorar ou a conter-se para o não fazer, conseguia ainda arranjar coragem para escrever e reflectir a sua história de vida. Coloquei precisamente esta questão. Na maioria dos casos, percebi que a reflexão sobre o percurso de vida era até terapêutica, uma vez que havia uma maior consciência dos ciclos da mesma. Porque a vida é feita de ciclos. A vida é feita de momentos da maior felicidade, em que tudo parece simples e eterno, mas também é feita de dor, de sofrimento, de momentos que parecem, igualmente, não ter fim. E a vida é feita da capacidade de dar a volta aos ciclos negativos para os transformar em positivos. É isso que os "meus" adultos me ensinam diariamente. Ouvi-los é, também para mim, terapêutico. Por isso, ao agradecerem pelo tempo ou pelo desabafo, a única coisa que posso dizer é que eu é que tenho tanto, mas tanto a agradecer!

13.2.09

Os portefólios podem dar asas!


Acompanho três adultas há mais de um ano, no processo RVCC de Nível Secundário. Hoje chegou o dia em que entregaram os seus portefólios reflexivos de aprendizagens para se apresentarem a Júri brevemente. São sempre dias de ansiedade, de pressão, de angústia para se conseguir ter tudo terminado a tempo e horas. Nestes dias, há uma pequena "revolução" no Centro. A agitação é muito grande, a emoção forte. Às vezes há lágrimas que caem sem pedir licença, outras vezes contêm-se, mas não se disfarçam, o brilho no olhar é forte demais. O orgulho é maior que todo o esforço e sacrifício que fizeram ao longo de cerca de 13 meses. Os portefólios são um espelho da vida que estas adultas tiveram, daquela com que sonham e se projectam no futuro.

Olho para os portefólios em cima da minha secretária e revejo neles cada uma delas. As imagens, as capas, as dedicatórias, as reflexões finais... Tudo é grande demais para caber nas palavras que queremos dizer umas às outras. Abraçamo-nos, choramos e rimos, cada uma à sua maneira. Quatro mulheres que não foram simplesmente orientadora ou candidatas, mas companheiras nesta caminhada tão frutífera. Ao fim do dia olho novamente para os portefólios em cima da mesa. Apetece-me guardá-los para sempre, ficar com um bocadinho delas também. Releio-os vezes sem conta, sobretudo as introduções e as conclusões. Penso para mim: "o que vos vai ficar no fim disto tudo? o que serão daqui a 10 anos? implementarão os vossos projectos, os vossos sonhos?...".

No final, apenas vos desejo uma coisa: sejam felizes, muito felizes, porque são mulheres inspiradoras e dignas de tudo o que têm à vossa espera! O mundo é uma incógnita, as oportunidades nem sempre são as mais favoráveis, mas vocês já provaram que são capazes de mudar o rumo de cada uma das vossas histórias! Acima de tudo, saiam do casulo onde estiveram tanto tempo, e voem, agora com umas asas novas, mais fortes, eu sinto!

Um beijo enorme a cada uma de vocês, por terem mostrado o que são, por terem aberto o vosso coração comigo. Vou ter saudades vossas, mas comigo ficará sempre tanto, tanto de vocês!...

9.2.09

Homenagem ao "meu herói"


Hoje perdi aquele a quem chamava o meu "herói" do processo RVCC. O Sr. Manuel e a esposa encontravam-se a realizar o seu processo de 9.º ano quando lhe foi diagnosticada a doença. Fui das primeiras a saber e a apoiar, como pude, sem saber muito bem o que fazer ou dizer. O meu primeiro pensamento foi "eles não podem desistir". Já sabia que essa ia ser a primeira decisão, mas não podia deixar que não cumprissem, ambos, um dos seus maiores sonhos: concluir a escolaridade que não conseguiram em tempos, por dificuldades enconómicas e sociais. Conversámos e combinámos que iam continuar à medida que conseguissem, pois nós dar-lhes-íamos todo o apoio. Assim foi, sessão a sessão, o Sr. Manuel foi fazendo o seu processo e ganhava uma nova vida nas sessões. Eu, os colegas de grupo, os formadores ajudámos a manter o espírito positivo, até que chegou o dia de Júri. Foi um dos dias mais marcantes da minha vida. No final todos choraram de tristeza, talvez até de pena, menos eu. Chorei por dentro, para que ele não me visse, mas de felicidade, pois sentia no seu olhar, nas suas palavras, na sua energia, que um sonho tinha acabado de ser concretizado. Ambos sabíamos que poderia ser o último.

Chegou o dia da entrega dos Diplomas, nova emoção. Quis tirar uma fotografia para recordação, eu tentei sorrir, o Sr. Manuel e a esposa tentaram evitar as lágrimas. Sabíamos que era a última fotografia que tirávamos juntos. Desde o processo que ficou uma amizade, uma união muito especial entre nós. A esposa continuou para o 12.º ano, ele vinha visitar-me várias vezes. Dizia-me "gosto muito de a vir visitar, o seu sorriso faz-me bem". No final abraçávamo-nos sem nada dizer. Nem "até breve", nem "adeus". Apenas um abraço, sincero, amigo. E no final, o olhar. Ambos disfarçávamos e dávamos o nosso melhor sorriso.

Não me esqueço de nenhum dos "meus" adultos, mas sem dúvida que o Sr. Manuel foi um dos que mais me marcou e será sempre o meu "herói", o maior lutador que conheci para levar o seu processo até ao fim e o que despertou o melhor de mim, não só enquanto profissional, mas sobretudo enquanto pessoa. Vou sentir falta da energia, da vontade de viver, dos abraços, mas mais do que tudo, dos sorrisos... Mas o Sr. Manuel ficará sempre nas minhas memórias mais doces!

6.2.09

Pérolas

Há pouco recebi esta apresentação de um adulto que acompanho. Fazia-se acompanhar de uma mensagem especial, que me fez ver que há mesmo "pérolas" no nosso dia-a-dia e que aquilo que tentamos fazer, às vezes com tanto sacrifício, dá sempre os seus frutos! Eu é que tenho tanto, mas tanto a agradecer por tudo quanto tenho aprendido com todos os adultos que tenho acompanhado nesta caminhada! Não haverá nunca palavras para reproduzir como a minha vida é mais rica por cada uma das pessoas que já passou por mim!
Bom fim-de-semana para todos os que me acompanham nestes "percursos da vida"!

31.1.09

Facilidades vs Adversidades

"Se eu tiro a luz a uma planta, ela juntará todas as suas forças para conseguir reencontrá-la, as células apicais estender-se-ão espasmodicamente para descobrirem um orifício e, uma vez atingida a meta, a planta estará mais forte porque deparou com uma adversidade e conseguiu superá-la."

Susanna Tamaro, Escuta a minha voz

Os adultos que acompanho "queixam-se" muitas vezes da dificuldade do processo RVCC: "vocês são muito exigentes! então mas nunca mais acabo? quando é que chega? ainda só tenho esses créditos?". Nem sempre é fácil explicar, fazer compreender que as dificuldades, as adversidades servem precisamente para ganharmos novos recursos, novas aprendizagens, para dar mais valor ao esforço que fazemos... Muitas vezes desanimamos porque achamos que a mensagem não passa, sentimo-nos quase como se estivéssemos a falar "para uma parede", esbarramos em resistências. No entanto, na preparação para o Júri de Validação sinto sempre que valeu a pena, que afinal a mensagem passou, não pelo que dissemos, mas pelo que o adulto passou para lá chegar. Tem que ser a pessoa a sentir a adversidade e a perceber a sua importância no seu desenvolvimento. Processos fáceis? Acredito que existam, mas que diferença farão?... Acredito que quem pode fazer a diferença no futuro é quem sente a adversidade e a consegue vencer, pois sentir-se-á com mais força para enfrentar outros obstáculos que a vida lhe traga.

28.1.09

Uma "aula" especial

Ser profissional de reconhecimento e validação de competências é, realmente um privilégio, já o disse várias vezes. Mas é, também, uma enorme responsabilidade. Hoje tive um atendimento individual com um adulto que me tem marcado de uma forma muito especial. É um autodidacta, um poeta, um sonhador. É um homem que não se resigna ao passar dos anos, que cada vez procura saber mais, de diferentes formas. Hoje dizia-me com o seu sorriso de criança: "Sabe, eu perco-me, começo a pesquisar sobre uma coisa, aparece outra que me desperta a curiosidade e lá vou eu, perco-me entre tantas coisas fascinantes que vou descobrindo". Neste atendimento, como nos outros todos, senti-me pequenina, muito. Percebi a humildade que precisamos de ter, a humildade de que fala o Dr. João Lima, na reflexão e no desafio que nos deixa. Aquele senhor falou sobre história, sobre linguística, sobre mecânica, electrónica, poesia, economia, falou sobre a vida, sobre a escola, sobre a aprendizagem. E eu apenas fui sua aluna, curiosa, atenta, com os olhos rasos de lágrimas por aquilo que estava a ouvir e a presenciar. É para pessoas como esta que o processo RVCC foi criado e faz sentido. É justo, é imperativo.